"No Egito as bibliotecas eram chamadas Tesouro dos remédios da alma. De fato é nelas que se cura a ignorância, a mais perigosa das enfermidades e a origem de todas as outras.”

(Jacques Bossuet).

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Não confunda necessidade com desejo

bolsa Hermes
Estamos numa é poca onde desejos pululam em nossa cabeça. Vivemos completamente rodeados por propagandas nos convencendo a adquirir “trocentas” coisas que dizem necessitarmos. Será?

Vejamos primeiramente o que dizem, os especialistas no assunto, sobre as necessidades.
Henry Murray (psicólogo), um dos primeiros a pesquisar a respeito, classificou as necessidades humanas em:

- primárias ou viscerogênicas (necessidades biológicas como sede, fome ou sono)

- secundárias ou psicogênicas (derivadas de uma necessidade primária ou inerentes ao psiquismo humano)

Então as necessidades referem-se aos aspectos básicos da condição humana (pessoais, psicológicos, sociais). Ponto!

O reconhecimento ou conscientização de uma necessidade vem da comparação entre uma situação real, presente no momento, e uma situação ideal ou benéfica ao indivíduo. Se estou em jejum há 12 horas a necessidade que se apresenta é a de comida. Se estiver com frio é a de agasalho, se me sinto solitária aparece a necessidade de companhia (afiliação) e assim por diante.

As necessidades estão vinculadas não só à preservação da condição humana como também à nossa evolução. No passado não precisávamos de telefone celular, hoje muitos não vivem sem ele (confesso que eu não sei mais viver sem o “tio Google”). rsrs Ou seja, conforme vamos evoluindo as necessidades aumentam ou ... o que pensamos ser necessidades.

Aí é que está a armadilha: confunde-se necessidade com desejo.

Um bosquímano não necessita de um aparelho de TV, até porque ele não tem acesso à rede elétrica, mas não o tendo ele se encontra afastado e ignorante do mundo “civilizado”, sem chances de poder escolher entre permanecer em sua situação ou almejar algo diferente.

Então digamos que nos dias atuais uma TV é uma necessidade, mas ... é preciso, realmente, que o aparelho seja um flat último modelo? Ou isso é um desejo de ter sempre as últimas novidades eletrônicas ou para competir com o vizinho, colegas, etc.?

Nós precisamos, realmente, ter uma geladeira que forneça cubinhos de gelo na porta (gelo portátil, segundo os fabricantes)?

Uma criança precisa, realmente, ter seu quarto abarrotado de brinquedos ao ponto de não haver espaço para movimentação?

Uma bolsa Hermès (preços que podem variar de R$ 1.700,00 a R$ 100.000,00) não cumpre a mesma função que qualquer outra bolsa?

E por último, é necessário, realmente, ter torneiras de ouro em casa? Não riam porque elas existem, sim.

Bem, isso tudo são desejos e não estou dizendo que há algo de errado neles, mas é preciso que se tenha consciência disso para não cair em extremos de, por exemplo, ser “um Maria vai com as outras”.

Existe um risco com relação aos desejos que é a distorção dos motivos, o que é destrutivo para o ser humano, pode levar à depressão, frustração e até crimes. Quando se deseja uma coisa por ela mesma isso pode não ser problema algum (exceção: megalomania), mas quando se deseja algo como meio de obter um fim ... aí reside a distorção e consequentemente o problema. Digamos que você deseja ser promovido, não pela satisfação de ter sua capacidade reconhecida, mas sim porque quer se “vingar” daquele colega chato ou o exemplo que já dei do último modelo de TV: para disputar status com alguém.

Esse é o perigo. Algumas filosofias e religiões orientais preconizam a total eliminação dos desejos para alcançar o Nirvana ou a iluminação. Acreditam ser uma orientação de Buda. Como Buda alcançou a sua iluminação não acredito que ele tenha dito isso, mas ... cada um, cada um... rsrs

Consciência, essa é palavra. Na medida em que expandimos nossa consciência vamos vendo que muito do que queremos não são realmente necessidades, mas desejos que podem ser saudáveis, não nos causar mal algum ... ou não.

Para ilustrar, eis a seguir algumas das necessidades psicogênicas listadas por Murray:


Realização (vencer obstáculos e atingir um alto padrão)
Afiliação (fazer amizades, ligar-se afetivamente a alguém)
Autonomia (resistir à coerção e à restrição)
Autodefesa (evitar a humilhação, fugir de situações embaraçosas)
Apoio (ter suas necessidades satisfeitas pela ajuda simpática das pessoas)
Exibição (deixar uma boa impressão, causar admiração)
Rejeição (separar-se de uma influência negativa)

Imagem: todaoferta.uol.com.br


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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Mulheres descartáveis

mulheres

“Michel Houellebecq é um escritor francês de péssima reputação entre as mulheres. Escreveu Partículas Elementares, livro em que lança mão de uma ciência duvidosa (a sociobiologia) para defender uma tese controversa: a de que a revolução sexual liquidou as chances de felicidade feminina.

O livro sugere que as mulheres se tornaram objetos de prazer descartáveis, que perderam o amparo que as estruturas tradicionais costumavam oferecer. Envelhecem, perdem o atrativo e a função reprodutiva e vivem à mercê dos filhos, cada vez menos respeitosos. É pessimista a não poder mais. Quem quiser ter contato com uma versão adocicada do livro pode pegar o filme nas locadoras, com o mesmo nome.

Desde a primeira vez em que tive contato com as idéias de Houllebecq elas me deixaram um gosto esquisito na boca. Por me considerar profundamente feminista, briguei silenciosamente com elas. Por ser, como o autor, um tanto pessimista, não consegui me livrar inteiramente da impressão de que as mulheres, de alguma forma, estão sendo enganadas pela história: no momento da sua maior conquista, no momento da liberdade e da igualdade de direitos, muitas se descobrem de mãos e vidas vazias.

Na semana passada aconteceram duas coisas que reforçaram meu pessimismo.

Primeiro, publicamos aqui na ÉPOCA uma reportagem perturbadora sobre infelicidade feminina. Desde 1972, ano após ano, um percentual cada vez maior de mulheres se diz infeliz com a própria vida, enquanto um número cada vez maior de homens se diz feliz com a deles. Quando a pesquisa começou, logo depois da revolução social e sexual dos anos 60, as mulheres eram muito mais felizes e esperançosas do que os homens. Agora a situação se inverteu. Pior: as mulheres ficam cada vez mais tristes à medida que envelhecem, enquanto os homens ficam mais satisfeitos.

Outra coisa que me deixou pessimista foi a conversa com uma amiga querida que já passou dos 40, tem filhos pequenos, nenhum marido e acabou de romper um namoro importante. Ela está desolada, tomada pela sensação de que as dores de amor são cada vez maiores, o tempo de recuperação é cada vez mais longo e a paixão, que viria a enterrar a dor passada, é cada vez mais rara. Os filhos dão trabalho, a vida é dura e ela já não se sente atraente como costumava ser. Eu tentei animá-la o quanto pude, mas saí da conversa mais pesado do que entrei. Pensei no livro de Houllebecq.

Hesito em escrever o que planejei escrever agora. Faltam palavras e a convicção profunda. O sentido do que eu quero dizer me parece francamente conservador, ainda assim talvez seja a coisa certa a ser dita. Talvez. Considerando, então, que as dúvidas podem ser melhores que as certezas, avancemos.

Pode ser que a revolução dos costumes tenha traído as mulheres, como sugere Houllebecq. Digo isso e me lembro, imediatamente, de mulheres bem-sucedidas e livres que eu conheço. Elas tocaram sua vida sem se lixar para preconceitos e para a tutela dos homens. Criaram seus filhos de forma não convencional. Tiveram maridos, mas nunca foram prisioneiras de casamentos. São filhas dos anos 60. Agora estão chegando aos 50 ou 60 no controle das próprias vidas. Têm dinheiro, prestígio social e familiar e – não menos importante – estão acompanhadas. São felizes, me parece. Mas talvez sejam exceções: personalidades exuberantes, talentos privilegiados que teriam dado certo em qualquer época e qualquer ambiente.

A maioria das mulheres acima de 40 que eu conheço não é assim. A maioria é gente normal, que viveu as liberdades herdadas dos anos 60 e 70 como teria vivido o conservadorismo anterior, com naturalidade. Não eram revolucionárias. Elas acreditaram na ideia da época de que poderiam ser sexualmente livres, economicamente independentes e que tinham pleno direito à felicidade. E não foi bem assim que aconteceu. O sexo escasseia quando se deixa de ser jovem e bonita. A independência econômica ainda é uma miragem para homens e mulheres. E a felicidade, agora se sabe, não é sinônimo de liberdade e igualdade. Talvez seja o contrário, o que seria muito humano.

Parte dos problemas femininos se deve ao comportamento dos homens. Antigamente, eles ficavam no casamento, ainda que não ficassem necessariamente em casa. Manter os filhos era obrigação primordial do pai. Agora os homens vão embora e frequentemente deixam às mulheres a tarefa de criar os filhos. E está tudo bem. Não dão dinheiro suficiente e nem atenção suficiente. E está tudo bem. Na cultura de “vamos ser felizes”, herdada dos anos 60, que se espalhou por todas as classes sociais, a obrigação essencial de cada um é com a própria felicidade. A noção de dever e de obrigação vai se esgarçando até não significar coisa nenhuma. Lealdade (sobretudo sexual e afetiva) é uma palavra anacrônica. Vem junto com “traição” na lista daquelas que se usa entre parênteses.

É claro que a culpa pela infelicidade feminina não é dos homens. Nas últimas décadas as mulheres puderem fazer escolhas. Elas decidiram com quem e como gostariam de viver. Quantas vezes iriam casar ou se separar. Quando e em que circunstância seriam mães (esquecendo, por um segundo, que o aborto ainda é crime no Brasil). Se deixaram de perseguir a própria carreira (ou o sonho) com a dedicação que ela (ou ele) merecia, isso foi escolha, não imposição. Pelo menos na classe média. Se perseguiram a carreira e agora se sentem sozinhas, também isso foi resultado de escolha. O segundo filho, o casamento tedioso, a solidão apavorante: tudo decorre das escolhas. O amor que arrebata também. A família feliz também. A estabilidade. A luta na trincheira do lar. O que não é escolha é azar, como o abandono. Ou sorte, que também existe.

Assim tem vivido a minha geração. Ela fez e faz escolhas dentro daquilo que Brecht chamava de “o tempo que nos foi dado viver”. E eu acho que esse tempo tem beneficiado mais os homens que as mulheres. E, dentre as mulheres, tem beneficiado mais aquelas que fizeram opções mais conservadoras. Ainda é arriscado para as mulheres viver com a liberdade dos homens. O custo dos erros e dos azares não é o mesmo. E, ao longo do tempo, vai se tornando mais alto para as mulheres. Esse é o tema de Houllebecq. Homens não engravidam e raramente ficam com os filhos. Homens viajam mais leve pela vida e pelo mundo do trabalho. Homens (ainda) não dependem tão fundamentalmente da juventude e da beleza. Usufruem mais do mundo e por mais tempo. Estão mais bem aparelhados para viver o “cada-um-pra-si” do planeta egoísmo.

A que isso nos leva? A uma segunda revolução dos costumes, eu acho. Na primeira, quarenta anos atrás, homens e mulheres ficaram “iguais”. Na segunda, talvez a gente descubra que as mulheres – as mães dos nossos filhos – precisam de um grau adicional de proteção social, de lealdade afetiva e de celebração nas suas funções tradicionais. Sem hierarquias. Sem “ordem natural” masculina. Gente com poder igual, mas com necessidades diferentes.

Em 1875, descrevendo uma utopia, Karl Marx escreveu que a sociedade ideal deveria dar às pessoas de acordo com as suas necessidades e receber delas de acordo com a sua capacidade. Talvez muitas mulheres estejam dando mais do que deveriam e recebendo menos do que precisam, em vários terrenos. Talvez por isso as pesquisas mostrem que elas estão cada vez mais tristes. Talvez por isso a minha amiga esteja destroçada. A simpática barbárie de costumes em que vivemos nos últimos anos pode não ser um bom ambiente para moças de família. Ou para as moças construírem direito suas famílias.”

Ivan Martins – Revista Época – 21/10/2009

Dá o que pensar, não é? Meninas, reflitam mais nas suas escolhas!!!

Imagem: ligeiramentemegera.blogspot.com

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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Ego. O que fazer com ele?

ego

Já li muitas matérias de religiosos, gurus(?), canalizadores(?), etc. falando mal do Ego e exortando as pessoas a se livrarem dele ou o destruírem.

Nada mais fácil do que dar conselhos sem conhecimento de causa.

Quem fala mal do Ego são aqueles que estão sob o domínio dos sistemas de crenças limitantes que nos governam há tanto tempo.

Uma dessas crenças é a de que o Ego é a causa de comportamentos arrogantes, possessivos, materialistas, etc. Segundo alguns, o Ego impediria o ser humano de ser espiritualizado e se aproximar da Divindade.

Essa crença está fundamentada em uma outra criada pelas religiões: a matéria (o corpo) não é algo divino e , pelo contrário, nos afasta de Deus.

Nas religiões ocidentais estamos sempre encontrando ministros(?) de Deus nos templos, igrejas, e agora até na TV, esbravejando contra “os apetites da carne”. Estes até estão listados entre os sete pecados capitais.

Pois bem, “os apetites da carne” são também atribuídos ao campo de atuação do Ego.

Agora, diga-me: você é o seu Ego - somente?

Claro que não, somos seres bem mais complexos. O Ego é simplesmente uma parte nossa, não a nossa totalidade. Existem outras instâncias psíquicas capazes de controlar o Ego quando ele “sai fora dos trilhos”.

Sem o Ego não teríamos condições de sobreviver aqui no planetinha. O Ego carrega uma energia masculina ou yang, como queiram, e é esta que possibilita a ação e consequentemente a sobrevivência.

O Ego também possibilita o senso de identidade, sem ele não teríamos noção de quem somos. Ele permite a autonomia, o ajustamento à realidade, a responsabilidade, a independência e o tudo mais necessário para nos expressarmos como indivíduos aqui na terceira dimensão.

Os problemas surgem quando o indivíduo pensa que o Ego é tudo que existe, o que cria as atitudes autocentradas, as narcisistas ou ainda as do tipo “eu contra eles”.

Muitos, quando adultos, continuam com um Ego infantil, exigindo gratificações imediatas, necessitando de regras e normas ditadas pelos outros (é isso a que a criança está acostumada) ou mantendo os sentimentos de onipotência que costumavam ter na infância.

Esse é o Ego não saudável ou não desenvolvido.

“Enquanto não são aceitas, as limitações da esfera humana não podem ser transcendidas. Enquanto não for suficientemente desenvolvido, o Ego não pode ser liberado. Essas afirmações podem parecer contraditórias, mas são passos essenciais do caminho espiritual. Somente quando o Ego é saudável e forte podemos saber que ele não é a resposta final do ser.” (Guia do Patthwork.)

Ou seja, para podermos nos liberar do jugo do Ego primeiramente precisamos trabalhá-lo no sentido de fortalecê-lo. É então que surgem os aspectos positivos como: o discernimento, a compaixão, a responsabilidade, a capacidade de fazer escolhas conscientes e aceitar as frustrações, entre outros.

O Ego não é bom nem mau, ele só precisa ser amadurecido e educado.

Não briguem com ele. rsrs Aceitem-no, analisem-no e partam para fazer as mudanças necessárias ao seu desenvolvimento.

Imagem: valedosolencantado.blogspot.com

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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Técnicas de persuasão e lavagem cerebral utilizadas pelas igrejas

lavagem

Compartilho com vocês excertos de um texto do psicólogo Dick Sutphen porque é de importância crucial para as pessoas conhecerem o que fazem com elas para assim poderem sair gradativamente da hipnose coletiva em que vivem ou como dizem alguns: da Matrix.

"Conversão" é um eufemismo para "lavagem cerebral". Qualquer estudo sobre o assunto tem necessariamente de mencionar algo sobre a Renovação Cristã na América do século XVIII. Em 1735, Jonathan Edwards descobriu as técnicas por acidente durante uma cruzada religiosa em Northampton, Massachusetts. Percebeu que induzindo culpa e tensão, os "pecadores" presentes sucumbiam e submetiam-se completamente aos seus comandos.

As técnicas estão sendo utilizadas ainda hoje na Renovação Cristã, mas também em cultos, treinamentos de potencial humano, reuniões de negócios e inclusive no Exército dos Estados Unidos, para não mencionar o resto. A meu ver, a maioria dos pregadores não sabe que está usando técnicas de lavagem cerebral. Edwards, no caso, simplesmente tropeçou numa que realmente funcionava, outros a copiaram, e ela continuou sendo copiada por mais de duzentos anos. Quanto mais sofisticados nosso conhecimento e tecnologia ficam, mais eficiente a conversão. Acredito fortemente que essa é uma das principais causas do aumento no fundamentalismo cristão, especialmente na sua versão televisionada, enquanto a maioria das religiões ortodoxas está definhando.

Os Cristãos podem ter sido os primeiros a utilizar com sucesso a lavagem cerebral, mas nós temos que nos voltar a Pavlov, o cientista russo, para obtermos uma explicação científica. No começo do século XX, seus estudos com animais abriram a porta para investigações em humanos. Depois da Revolução Russa, Lênin percebeu rapidamente as aplicações potenciais da pesquisa de Pavlov. Três estados distintos e progressivos de inibição transmarginal foram identificados por Pavlov. O primeiro é a fase equivalente, em que o cérebro dá idêntica resposta a estímulos fortes ou fracos. O segundo é a fase paradoxal, nela o cérebro responde mais intensamente aos estímulos fortes que aos fracos. O terceiro é a fase ultraparadoxal, onde padrões de respostas e comportamentos condicionados invertem-se de positivo para negativo ou vice-versa. Progressivamente, através de cada fase, o grau de conversão torna-se maior. Os meios para alcançá-la são muitos e extremamente variados, mas o primeiro passo a ser dado, tanto para a lavagem cerebral religiosa quanto política, é enfocar e trabalhar nas emoções do indivíduo ou grupo até que isso produza níveis anormais de raiva, medo, excitação ou tensão. Como conseqüência, essa condição impede o discernimento claro e aumenta a sugestionabilidade. Quanto mais esse estado for mantido ou intensificado, mais crescem seus efeitos. Uma vez atingida a catarse, ou "primeira fase mental", a manipulação torna-se mais fácil, e assim as programações mentais preexistentes podem ser substituídas por novos padrões de comportamento e pensamento.

... táticas de conversão e hipnose são duas coisas distintas, e as de conversão são muito mais potentes. Entretanto, normalmente as duas se encontram misturadas, mas com grandes resultados.

Como Agem os Pregadores

Apenas vá a alguma igreja e sente-se entre o meio e o fundo (preferencialmente no terceiro quarto). Alguma música repetitiva será tocada enquanto as pessoas organizam-se para começar a cerimônia. Essas músicas repetitivas, com batidas idealmente oscilando entre 45 a 72 por minuto (um ritmo próximo ao do coração humano), são muito hipnóticas e podem gerar estados alterados de consciência em uma alta porcentagem dos indivíduos, mesmo que mantenham os olhos abertos. Uma vez que as ondas cerebrais alfa sejam predominantes, você torna-se no mínimo 25 vezes mais sugestionável do que no estado beta de consciência. A música sendo a mesma para todos os eventos realizados pela igreja, ou ao menos possuindo a mesma batida, vai induzir um estado mental alterado quase imediatamente. Subconscientemente, o cérebro relembra-se de sua última experiência e responde entrando em transe automaticamente. Observe as pessoas aguardando o início da cerimônia. Muitas vão exibir sinais externos de transe: corpos relaxados e olhos levemente dilatados. Normalmente, enquanto estão sentadas em suas cadeiras, começam a balançar suas mãos no ar para frente e para trás. Abrindo o evento, provavelmente aparecerá o pastor-assistente, que costuma ser muito bem treinado na técnica da "voz cadenciada".

Após induzir um estado alterado de consciência, passam a ter como objetivo gerar excitação e expectativa na audiência. Comumente virá um grupo de jovens mulheres em vestidos "angelicais e puros" para cantar. Músicas Gospel são ótimas para gerar excitação e envolvimento. No meio da canção alguma delas pode ser "acometida por um espírito" e cair no chão, ou reagir como se estivesse sendo possuída pelo Espírito Santo. Isso aumenta muito eficientemente a tensão no ambiente. Nessa situação, táticas de conversão e hipnose estão sendo misturadas e, como resultado, a audiência está totalmente absorta. O ambiente vai tornando-se cada vez mais e mais tenso. Exatamente neste momento, quando o estado mental alfa foi atingido, passarão com a "cestinha de coleta". Ao fundo da igreja o pastor assistente com sua "Voz Cadenciada" provavelmente estará incitando os presentes dizendo – sempre cerca de 45 vezes por minuto – algo do tipo: "Dê a Deus... Dê a Deus... Dê a Deus... Dê a Deus...", e a audiência obedece.

A seguir aparece o pregador "fogo e enxofre" induzindo medo e tensão, falando sobre o "demônio", "ir para o inferno" ou a "proximidade do fim do mundo". No último encontro desse tipo em que fui, o pregador falava que em breve haveria apenas sangue saindo de todas as torneiras da Terra. Ele também era obcecado com o "machado sangrento do divino", que todos haviam "visto" na semana passada pendurado acima do púlpito. Não tenho dúvida de que todos o viram, o poder da sugestão aplicado a centenas de pessoas em hipnose assegura que ao menos 10 a 25 por cento delas veria qualquer coisa que ele dissesse estar lá. Na maioria desses encontros, após o "testemunho ocular", segue-se um sermão predominantemente baseado no medo. As pessoas da audiência virão ao palco para contar suas histórias. "Eu era aleijado e agora posso andar!", "Eu tinha artrite e agora ela se foi!". É um tipo de manipulação psicológica que realmente funciona. Depois de ouvir numerosos casos de curas milagrosas, as pessoas normais na platéia com problemas simples estarão convictas de que podem se curar. O lugar está carregado de medo, culpa, excitação e expectativas.

Primeira Técnica

Esteja alerta caso uma dessas organizações ofereça sessões de "manutenção" após o curso principal. Podem ser encontros semanais ou novos cursos lecionados periodicamente. Tentarão convencê-lo a participar dessa "manutenção" para manter controle sobre seus "aprendizes". Assim como souberam os Renovadores Cristãos, eles também sabem que para haver sucesso em manipulações de longo prazo é imprescindível que existam sessões de "manutenção" posteriores à conversão.

Segunda Técnica

Outra evidência de que táticas de conversão estão sendo utilizadas são as "atividades" que causam fadiga física e/ou mental. Consegue-se isso normalmente ao deixar os participantes tão ocupados por longos períodos de tempo que não têm tempo para refletir ou pensar sobre o que estão fazendo/ouvindo.

Terceira Técnica

Essa categoria, dizendo de modo simples, engloba todas as técnicas usadas para aumentar a tensão no ambiente.

Quarta Técnica

Insegurança. Eu poderia passar horas descrevendo várias técnicas usadas para gerar insegurança. A maioria dos participantes tem grande receio de que seus "treinadores" o coloquem no centro das atenções frente ao grupo. Uma das práticas mais comuns é levar os participantes a relatar seus segredos íntimos, e normalmente também são constrangidos a participar de atividades que enfatizem a "remoção de suas máscaras". Em um desses cursos, colocava-se um participante num palco de frente a todos os outros enquanto era verbalmente atacado pelos seus instrutores. Uma pesquisa feita alguns anos atrás mostrou que a fobia mais comum entre as pessoas é falar em público. Boa parte sucumbe, mas a maioria enfrenta essas situações de estresse extremo simplesmente "fugindo" mentalmente. Eles literalmente entram em alfa, o que os torna automaticamente muito mais sugestionáveis do que normalmente seriam. Essa situação representa mais um passo no caminho da conversão.

Quinta Técnica

Um outro traço típico é o uso de jargões ou neologismos que apenas tenham significado aos participantes do curso. Linguagem capciosa, depravada e/ou confusa também é usada propositalmente para causar constrangimento.

Sexta Técnica

Mais um sintoma do uso das técnicas de conversão é evitar o humor, ao menos até serem convertidos. Após isso, o divertimento e humor são altamente visados por serem símbolos da nova "felicidade" que os participantes supostamente teriam encontrado.

Tenho plena convicção de que pelo menos um terço da população mundial se enquadra no perfil que Eric Hoffer denomina "Crentes Cegos". São literalmente seguidores cegos, pessoas que querem livrar-se de seu poder. Elas procuram por respostas, significados e iluminação em coisas externas a si mesmas. Hoffer diz em seu livro "O Crente Cego" (um clássico sobre o assunto) que "essas pessoas não pretendem conseguir fortalecimento ou auto-afirmação, mas apenas fugir de si mesmas, dando o controle de suas vidas a outrem. São seguidoras não porque procuram auto-superação, mas, na verdade, porque anseiam a auto-renúncia.

Fonte: Dick Sutphen. Psychologie und Landmark Education. Tradutor: André Díspore Cancian.

Como deu para ver é um assunto sério e perigoso. Pessoas convertidas por essas técnicas deixam mais ainda de pensar com a própria cabeça do que o restante da humanidade, têm muito mais dificuldade para desenvolver a consciência. A persuasão e a lavagem cerebral são a razão de existirem fanáticos tanto políticos como religiosos. E o pior é que tais pessoas não têm a mínima idéia de que o são, quando confrontadas reagem veementemente contra a denominação de fanáticas, como também não se dão conta de que sofreram lavagem cerebral.

Imagem: investigacoessud.blogspot.com

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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O que é Efeito Lúcifer? Parte 2

EfeitoLucifer2

Prosseguindo com o assunto do último post aqui veremos, segundo Philip Zimbardo, os sete processos sociais capazes de tornar uma pessoa mais suscetível a cometer algum tipo de maldade.

1. Dar o primeiro pequeno passo sem pensar: normalmente algo quase insignificante, mas que abre as portas para abusos cada vez maiores e que, quando aumentado pouco a pouco, não se percebe o resultado final. Como um choque de 15 volts.

2. Desumanização do outro: é mais fácil fazer mal a alguém quando não se vê ou não se sabe quem é essa vítima. Os prisioneiros de Stanford não se chamavam John ou Peter, mas 416 e 325.

3. Desumanização própria: quando se está anônimo numa multidão, sua maldade é diluída entre os demais. O antropólogo R. J. Watson estudou 23 culturas em seus processos de ir à guerra. Dos oito povos que iam para a batalha sem pinturas ou ornamentos específicos, apenas um tinha alto grau de violência, isto é: torturavam, mutilavam e/ou matavam seus inimigos. Mas dos outros quinze que mudavam a aparência (ou se escondiam atrás de óculos escuros espelhados e uniformes padronizados), tornando-se anônimos, doze matavam e mutilavam. Ou seja, dos que matavam e mutilavam, 12 entre 13 mudavam a aparência. Mais de 90%.

4. Difusão da responsabilidade pessoal: quando um criminoso é linchado, a culpa é da multidão e não dos socos e pontapés individuais. Mais do que a covardia do grupo, representa a diluição da culpa.

5. Obediência cega à autoridade: como demonstrado por Milgram,  a autoridade também funciona como pára-raios para atribuição de culpa de quem apenas executa ordens.

6. Adesão passiva às normas do grupo: odiar a torcida adversária faz parte do ritual de vestir o uniforme do seu time - mesmo que o seu irmão esteja do outro lado da arquibancada. Mesmo que você odeie uma pessoa que nunca viu apenas por causa das cores que ostenta.

7. Tolerância passiva à maldade através da inatividade ou indiferença: muitas vezes o indivíduo não é o responsável direto pela maldade, mas permite, inabalável, que ela seja praticada.

Quando essa cadeia de eventos ocorre numa situação que não lhe é familiar, ou seja, onde seus habituais padrões de resposta não funcionam, você está pronto para perpetrar o mal - e nem se dará conta disso. Sua personalidade e princípios morais já estarão desligados.

O autor explica que a chave para tal comportamento está na situação em que a pessoa se encontra e na enorme influência que ela tem sobre os indivíduos. O sistema formado pelo conjunto de bases acadêmica, cultural, social e política do indivíduo cria as situações que haverão de corrompê-lo.

No Experimento de Stanford, os papéis de guardas e prisioneiros faziam parte do repertório dos voluntários. Assim que os sorteios foram realizados, cada um encaixou-se ao seu papel automaticamente, de acordo com os estereótipos pré-concebidos.

Para mudar uma pessoa, prossegue, você tem que mudar a situação. E se quer mudar a situação, precisa entender em que parte do sistema está o poder. É necessário identificar e remover do ambiente o elemento dessa equação determinante para que o voluntário assuma o seu papel de guarda sádico - e mantenha-se nele.

Nos mais de trinta anos durante os quais estudou o tema, sua pergunta básica era: o que faz as pessoas agirem de forma errada? Suas conclusões são espantosas, ainda que simples e intrigantes, porque banais.

Imagine que alguém lhe pergunte: "vamos eletrocutar alguém hoje?" Dez anos antes de Zimbardo, Stanley Milgram provou que, uma vez colocados nas condições apropriadas, 65% dos voluntários fritariam pessoas inocentes, as quais nunca viram mais gordas.

Milgram estudou, no entanto, o poder de uma autoridade individual. Zimbardo avaliou, por sua vez, a influência de uma instituição. Trata-se, no final das contas, de um estudo sobre o poder da instituição. E a maioria de nós está dentro de uma instituição a maior parte do tempo.

Fonte: http://www.naopossoevitar.com.br/2009/07/experimentos-em-psicologia-phil-zimbardo-e-o-efeito-lucifer.html

Discordo em parte da conclusão de Zimbardo quanto à instituição ser a causa determinante. Pessoas que tenham a consciência desenvolvida não deixarão extravasar seu lado sombrio, independente de quão forte seja a influência do grupo ou de uma instituição. A “maldade” só virá à tona ou ocorrerá como manifestação da “hipnose” em que vive a maior parte da humanidade e da falta de consciência mais expandida.

Na medida em que desenvolvemos nossa consciência o lado sombra começa a ser administrado, diminuindo e por fim extinguindo essa capacidade tão humana de fazer mal ao outro e também a si mesmo.

Imagem: http://www.naopossoevitar.com.br/

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