"No Egito as bibliotecas eram chamadas Tesouro dos remédios da alma. De fato é nelas que se cura a ignorância, a mais perigosa das enfermidades e a origem de todas as outras.”

(Jacques Bossuet).

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A medicalização dos conflitos

remédios

A leitura de uma notícia sobre a tese de doutorado “A medicalização dos conflitos: consumo de ansiolíticos e antidepressivos em grupos populares” de Reginaldo Teixeira Mendonça, farmacêutico e professor da Universidade Federal de Goiás, me reavivou esse tema que já tinha despertado minha atenção.

Nos últimos anos vem aumentando, ano a ano, o consumo de medicamentos ansiolíticos e antidepressivos. Por que?

Creio que dois fatores principais: 1) o imediatismo que se tornou uma característica do humano moderno e 2) mau ou irresponsável atendimento médico.

O imediatismo está associado ao baixo nível de tolerância à frustração.

Cada vez mais pessoas se tornam impacientes quando estão com alguma aflição psicológica e/ou emocional. E querem uma solução rápida - concretizada por meio de remédios.

Atualmente a palavra de ordem é: “para ontem”. Parece que a rapidez com que a indústria tecnológica lança novos produtos (produzir mais consumo) contagiou a todo mundo. Tudo o mais tem de ser rápido. Pra já!

Estou com dor de cabeça? Não vou esperar que meu corpo resolva o problema: tomo logo um analgésico.

Meu televisor estragou? Mandar consertar demora, compro outro e já aproveito para ter um com tela plana.

O trânsito está engarrafado? Vou “costurar” ou pegar o acostamento.

Muitos homens até reclamam da “mania” por preliminares que as mulheres têm. Que perda de tempo! rsrs

A natureza, em sua sabedoria inerente, tem ciclos, alguns bem demorados, para tudo. Se fosse apressadinha, a gravidez humana, por exemplo, levaria um mês ao invés de nove. As árvores frutíferas de grande porte podem levar até dez anos para produzir seus primeiros frutos.

Nesse mundo louco em que vivemos atualmente os conflitos nas relações interpessoais estão muito frequentes, bem como o sofrimento causado por inadequação, baixa auto-estima, pressões, as mais variadas, traumas, depressões, etc.

Todos esses problemas podem ser resolvidos por intermédio de psicoterapia, mas esse é um tratamento caro e mesmo aqueles que podem suportá-lo não o procuram porque é um tratamento demorado.

Solução? Ansiolíticos e antidepressivos. Não sou contra o seu consumo quando a pessoa se encontra em considerável sofrimento e não possua meios para fazer uma psicoterapia. Também já atendi pacientes a quem eu aconselhei procurar um psiquiatra para serem medicados concomitantemente à terapia.

Contudo, o que está acontecendo atualmente é que as pessoas estão procurando um alívio imediato através de medicação, não procurando usar seus próprios recursos: reflexão, auto-análise e até, quem sabe, conversas com algum amigo íntimo.

“As relações sociais são pautadas pelos medicamentos e essa tendência a medicalizar os conflitos pode ser considerada a produtora de um silêncio que impossibilita a pessoa de encarar qualquer mudança em relação à sua vida cotidiana”. (Reginaldo Teixeira Mendonça)

Remédios psicotrópicos não resolvem os problemas, eles só amenizam os sintomas e se você for uma pessoa consciente irá procurar um psiquiatra para receitá-los e não um médico clínico que não tem o conhecimento necessário para prescrever psicotrópicos corretamente.

Há muitos riscos envolvidos no consumo de tais medicamentos (não informados ao público em geral) sendo um bem comum a dependência. Afinal, eles também são drogas!

Imagem: crimesdecolarinhobranco.com.br

Este blog foi criado para você, leitor. E só saberei se você está satisfeito se comentar os posts, ou então, pergunte, questione e sugira temas ou modificações.

9 comentários:

José S. Pereira disse...

O tema é interessantíssima, Atena. E bastante polêmico, até.

Quando eu era pequeno, lembro dos filmes de Hollywood, e dos livros épicos... Olha, em todos, os heróis tinham uma dignidade própria. Capazes de se sacrificarem. No conceito Grego da Tragédia, os heróis morriam. Essa era a premissa para conquistarem o título de heróis: o sacrifício pessoal em nome de causa ou de outros.

O que isso tem a ver com remédios? Bom, diretamente, nada. Mas, em algum ponto da história da sociedade moderna, o herói pegou uma metralhadora e quem viamos se sacrificar eram os pobres coitados dos vilões, condenados à morte, por mais numerosos e bem armados estivessem.

Empurraram goela abaixo da sociedade a Obrigação da Felicidade. Pior; a repulsa pela tristeza, pela dor, pela derrota. E ficou difícil amadurecermos.

Na outra ponta do consumo, aos que não optam por remédios, as seitas e filosofias imediatistas, que não deixam de serem Pílulas Mágicas, ganham adeptos aos montes. Hoje, tentam vender a sabedoria de Dalai Lama através da leitura de algumas citações e uns poucos segundos de meditação.

O que forja a boa lâmina é o calor. E a forja do ser humano é a dor. Perdemos essa percepção. Alguns, creem que isso possa ser comprado em farmácias, outros pensam encontrar a iluminação em consultórios de Cirurgiões Plásticos. E aquela pessoa que se atrever a conceder a reverência devida à tristeza, ao momento de dor, será tratado como doente profundo. Socialmente perigoso, até. Passível de ganhar um IPad dos pais, no dia do aniversários. "Quem sabe assim, não passa essa aflição e o coitadinho aprender a desfrutar as maravilhas dos shopping centers das almas?"

Claro, cada caso um caso. Existem problemas físicos que necessitam da medicação. Pacientes mortos não evoluem. Como existem pessoas que devem buscar ajuda profissional, quando não conseguem enfrentar o problema sozinhos. Mas... devem ter claro em suas mentes: sem mágica. Sem imposição milagrosa de mãos.

Muito interessantes a pesquisa e suas constatações.

Abraços

Reginamaste disse...

Concordo que os psicotrópicos dificilmente curam,mas,por outro lado,dependendo do caso,são extremamente necessários e devem ser usados,princi-
palmente no alívio dos sintomas físicos,
causados pelos transtornos afetivos,como a:depressão,ansiedade,etc...que
causam muito sofrimento e prejudicam profundamente na vida social e profissional da pessoa.
Mas cada caso é um caso e a prescrição do
medicamento só deverá ser efetuada após um criterioso diagnóstico,o que,infelizmen
te,isso não ocorre na maioria dos profissionais de medicina.Parabéns pelo blog.Um gde. abço.

Mary Miranda disse...

Atena, minha amiga!

Sabe o que vejo? Os dois itens acontecerem...
O imediatismo das pessoas (isso inclui as questões da saúde),as leva a recorrerem a 'facilidades' que não retornam propriamente em curas.
Vejo gente se enchendo de comidas inadequadas, sabendo que o ideal seria fazer uma dieta balanceada, porque a qualquer momento pode recorrer à lipo! (Uma conhecida mesmo disse que pretende fazer nesses moldes que citei...)
A indústria farmacêutica também induz a esse processo de 'medicação em massa'.
Tenho um grande amigo que é farmacêutico, terminará seu mestrado ano que vem, que me disse às claras, que muitos profissionais da saúde são comprados por indústrias para 'empurrarem' certos produtos altamente viciantes.
Por isso, devemos ficar de olho no critério que usamos para cuidar de nossos corpos.
Saúde é um dos maiores bens que temos, embora poucos de nós nos lembremos disso...


Beijos, amiga!
Adorei que tenha compartilhado conosco esse post informativo!!!!

Mary:)

Atena disse...

Caro José:
Minha jornada espiritual ensinou-me que não precisamos aprender pela dor, mas sei a que você se refere e concordo que, no atual estágio de nossa evolução, a dor tem o seu papel e muitos perderam a perspectiva. O deslumbramento por tudo fácil, empurrado pela mídia, realmente distorce a percepção.
Vivemos atualmente num mundo repleto de futilidades, imagem predominando sobre conteúdo, toneladas de livros de auto-ajuda, receitinhas fáceis para resolver problemas nada fáceis, soluções mágicas como você disse.
Poucos, como você, que se dão ao trabalho de refletir.
Quanto ao assunto ser polêmico, este blog não tem a intenção de ser leitura de fácil digestão. Nas entrelinhas há muito sobre o que pensar, podendo e devendo haver discordância, mas desde que após reflexão e uso da razão.
Seus comentários enriquecem e faço votos que os demais leitores os leiam, bem como os de outros esplêndidos leitores que aqui contribuem.
Obrigada e abraços

Atena disse...

Regina:
Você está certa, em muitos casos eles são necessários, o problema está na banalização que está havendo agora.
Obrigada pela visita e participação. Volte sempre.
abraços

Atena disse...

Cara Mary:
Tá vendo que povo mais sem noção? Se existe lipo, por que me preocupar com o que como?
Um dos grandes vilões da nossa sociedade atual é a indústria farmacêutica, mas o condicionamento humano já está tão instalado que as pessoas ainda defendem essas indústrias quando às vezes eu falo algumas coisas.
Até já tenho um post iniciado sobre este assunto.
Obrigada pela participação e beijos

TEIA disse...

Olá Atena.
Post divulgado na Teia.
Até mais

Cidadão Araçatuba disse...

E aqueles que não conseguem lidar com seus sentimentos e frustrações e começam a desenvolver doenças emocionais? Tenho um caso na família. Se você comenta que “fulano” morreu porque tinha dor nas costas, imediatamente o familiar em questão,sente dor nas costas dele também, e no dia seguinte corre para o consultório de um ortopedista.
O pior é que o "familiar" não quer tratar seus conflitos, medos e ansiedades, ele somatiza tudo. O que fazer nesse caso? Dar um tarjinha preta não é? E se ele acha que não precisa? É o caso! E aí, Dona Atena?
Abração e esperando seus valiosos conselhos para que eu não tenha que tomar o tarjinha... Rs

Atena disse...

Cidadão:
Nos é ensinado na faculdade que o primeiro sinal para um bom prognóstico de qualquer problema ou doença mental é o paciente reconhecê-lo. Isso posto, ele se submete ao tratamento, seja este qual for, psicoterapia ou medicação.
Com pacientes do tipo que você citou, apela-se para a “enganação” rsrs Ao familiar encarregado da alimentação do paciente é sugerido colocar a medicação na comida e/ou bebidas que o mesmo ingere. Infelizmente, quando o paciente se recusa a qualquer tratamento, não tem outro jeito.
Agora, antes dessa medida drástica, a gente sempre recomenda que alguma pessoa, não familiar (a velha estória de que santo de casa não faz milagres...), converse com o paciente sugerindo uma terapia, como aconselhamento ou apoio. JAMAIS tratamento. Afinal ele não precisa de tratamento porque é normal. rsrs
É difícil, mas quem sabe, com persistência ...
abraços