"No Egito as bibliotecas eram chamadas Tesouro dos remédios da alma. De fato é nelas que se cura a ignorância, a mais perigosa das enfermidades e a origem de todas as outras.”

(Jacques Bossuet).

terça-feira, 20 de julho de 2010

Não reclame, aja!

Outro dia, fuçando nos meus guardados, encontrei esta pérola de texto escrito por uma amiga. Como estamos em ano eleitoral ele vem bem a calhar para refletirmos o que nós cidadãos podemos e devemos fazer para melhorar o nosso país. Afinal, não é o que todos querem?

ARCANJO MIGUEL, ESTÁ EM FALTA

Mariléa de Castro

Já que está na moda, vou dizer: cansei. Dessa paranóia geral, da ingenuidade da maioria, e do clima artificialmente insuflado de toca fogo no circo que paira por aí.

Estou falando do clima irracional de “este país não presta”, decorrente das descobertas de negociatas, falcatruas e escândalos envolvendo políticos e altos escalões.

As emoções do povo brasileiro estão à flor da pele. Escândalos sucessivos envolvendo esferas políticas, desde algum tempo, têm nos arrastado, a força, para a frente de um espelho desagradável, onde temos sido forçados (claro, com o colorido e as fanfarras de uma mídia comprometida, mas vamos abstrair disso por um momento) a contemplar a nossa cara, como povo. A NOSSA. É aí que reside o gosto amargo. Nós sabemos – sim, bem no fundo sabemos, ninguém é idiota – que “eles” (os eternos “eles” expiatórios) são apenas “nós” – a nossa perfeita e acabada imagem, só recortada da multidão e colocada no palco iluminado.

Chato. Mas temos que encarar.

Tem alguém aí que acha que esses-políticos-corruptos-e-ineficientes-que-todos-abominamos são ETs? Oriundos de outra galáxia – a “Corruptos M-209”, e se materializaram aqui numa missão secreta de arrasar a moral e a paciência do povo brasileiro? Por favor. “Eles, os corruptos e ineficientes”, não são “eles”. Somos NÓS. Como? O amigo aí protesta que não é como eles? Eu também não. Mas tem gente – muita gente, milhares, milhões – que os elege e reelege, década após década - as mesmas figuras corruptas, ineficientes e caricatas. E as suas ações, desgovernos e promessas vãs e indiferença pelo bem comum, se perpetuam porque nós permitimos, compactuamos com – por ação ou omissão. Basicamente esta.

Que ingenuidade ou amnésia nos quer fazer crer que neste país nunca houve negociatas, corrupção, tráfico de influência, desvio de dinheiro público, propinas e comissões por atacado, assaltos a caneta armada? Ora, por favor. A única diferença é que hoje estão a descoberto. E nas páginas e lentes da mídia. Talvez até – quem sabe? – fosse maior décadas atrás. Só que a Polícia Federal não funcionava. Tá, mas que consolo isso nos dá? Nenhum. Exatamente nenhum. Pode, talvez, nos dar uma cabeça mais fria para não acender fósforos inúteis perto da lona do circo.

Então, amigos, vamos encarar friamente. “Eles” são nossa extensão. São o que nós aceitamos e permitimos. A materialização de nossos valores. Como? Você não? Hum. Quantas pessoas você conhece que não assinam a carteira da empregada - ou da faxineira de anos? Quantos sonegam impostos (maldito leão)? Quantos batem no parachoque alheio estacionado e saem de fininho? Quantos copiam trabalhos da internet – ou os compram, e vendem? Quantos furam filas, pedem para passar à frente seus interesses – desde que ninguém reclame? Quantos oferecem e aceitam propinas, comissões e favores? Quantos mentem ou dão cotoveladas morais para garantir o seu posto ou prestígio? Puxam o tapete do colega? Quantos enganam a mulher/o marido?

E, o mais grave, e que mais nos interessa no momento: quantos calam e se omitem de agir para CONSTRUIR um país melhor, concreta, objetiva e arduamente? De alguma forma, todos nós –ou quase todos. Ah, você não se cala? Não, não estou falando de repassar desabafos irritados pela internet. O que temos, a longo prazo, é de inventar algo melhor; não me pergunte neste momento o quê (e desconfie de quem tirar da cartola uma proposta mágica). Estou falando de ação organizada pela melhoria da sociedade. Eu disse ação, não bate-boca.

Ah! Pois é...Isso dá uma trabalheira danada, um incômodo, um cansaço, não dá pra ficar só vendo novela, fazendo churrasco e vendo futebol e indo ao xópingue. Custa fosfato, idealismo, espírito coletivo, mão-de-obra, criatividade.....a lista é longa.

Queremos passar, com o voto, uma procuração definitiva para que os anjos eleitos construam sozinhos, por nós, uma sociedade melhor. Não é a suprema ingenuidade - ou a suprema inconsciência?

O amigo/a aí tem participado de cobranças efetivas e constantes aos políticos que elegeu? Nem eu, mea culpa. Dá o seu tempo, a sua energia e o seu fosfato participando de alguma ação concreta para a melhoria da sociedade, voluntária e desinteressadamente, sem ganhar um tostão? Beleza: você faz parte dos 5% (estou chutando, pode ser 1% ou 7%, mas olhando ao redor, o que se vê é muita irritação e pouquíssima construção) que saem de dentro de seu foco individualista e se devotam a construir – eu disse construir, não “reivindicar” como um bônus gratuito - uma sociedade melhor.

Queremos que os políticos sejam decentes e eficientes? Sejamos coerentes (e não é uma rima, é uma solução). Eles - tenho que confessar a vocês, a toda a internet que parece que ainda não descobriu – são o que nós somos, refletem a nossa face como povo, como espécie. A foto revelada do nosso negativo – se é que alguém ainda sabe o que é isso.

Não existe essa coisa abstrata de bode-expiatório de “eles, os corruptos e ineficientes”. Existe uma sociedade cujos valores, tendências e hábitos permitem que sejam eleitos; e que continuem existindo, sem o repúdio adequado, leis, normas e sistemas que respaldam suas ineficiências, corrupções e malversação do dinheiro público. E se não queremos isso, temos que nos mexer. Se não o fizermos, vai continuar como está. Simples assim.

E, de passagem: é interessante ver como nós conseguimos conviver acomodados, e dormindo bem à noite, com crianças embaixo da ponte, cancerosos morrendo nas filas do SUS, idosos se arrastando em busca de remédios e auxílio-doença, seres humanos morando na rua; nunca vi ninguém fazendo abaixo-assinados contra isso na internet, organizando passeatas, tentando levantar a indignação coletiva; nunca vi a mídia se erguendo em protesto intenso. Mas se tocarem no nosso bolso....é um deus-nos-acuda.

É assim que se cria o caldo de cultura dos que só querem levar vantagem. E o bem comum? Tá, é muito bonito, mas... mateus, primeiro os meus. É assim que somos. Rebanhos humanos só são manipulados por causa da coleira do egoísmo.

Mudar, sim, é preciso, mas a começar por nós – pelo nosso comodismo, o nosso individualismo, a nossa indiferença pelo bem comum.

É muito mais fácil virar o rosto e fazer um desabafo pela internet, assinar uma lista que só expresse indignação, repassar um texto. Parece que se está fazendo alguma coisa.

Acredito que este país tem jeito, que lutar adianta, que mudar se pode desde que se pague o preço, que denunciar é válido mas só reclamar é inútil, que cuspir na face do Brasil é idiotice; que nenhum país melhor, nenhum mundo melhor vai cair do céu sem ser construído passo a passo por nós.

Essa indignação (por mais que em essência justa) meio alucinada quer o quê? Que desça o Arcanjo Miguel com a espada justiceira para punir os corruptos, ameaçar os ineptos, varrer as sanguessugas do país? Ou um ditador que prometa arrumar a casa desde que lhe entreguemos a alma e o corpo da nação? Arcanjos estão em falta; a outra categoria, infelizmente, prolifera bem no planeta. Declino de ambas.

Justiça, evolução e mundo melhor – quem tiver qualquer ação concreta para fazer, avise. Fogo no circo? Tá louco. A gente está embaixo da lona.

Mariléa de Castro é professora, tradutora e autora dos seguintes livros:

Guia do Brasileiro Pelado em Paris. Ed. Artes e Ofícios

Haiawhatha. Ed. do Conhecimento

Tudo que vive é teu próximo. Ed. do Conhecimento

Apometria Hoje (coletânea). Ed. do Conhecimento

3 comentários:

TEIA disse...

Olá.
Seu post foi publicado na Teia ,parabéns.
Estou levando seu banner para figurar entre meus parceiros .
Até mais.

carlos roberto de oliveira disse...

Amiga Atena:

Agradeço por me haver recomendado a leitura desse texto. Confesso que não conhecia Mariléa de Castro, e só hoje, depois de ler o seu post é que fiquei sabendo que ela é professora de português e literatura, além de especialista em História da Arte e Literatura Infanto-Juvenil, informações que colhi na internet.

Em meu pouco mais de meio século de vida já li muita coisa bonita e bem escrita, mas tenho que reconhecer que o texto me envergonhou por tudo o que não fiz até hoje.

Um dos grandes defeitos de quem vasculha a internet é agir mais ou menos como o Vampeta, ex-craque do Flamengo. Ele costumava dizer: "o Flamengo finge que me paga, e eu finjo que jogo futebol".

As pessoas, na maioria das vezes, fingem ler os textos que acham interessantes, apenas para poder deixar um comentário, nem que ele seja meio capenga. O importante é "participar", não é verdade?

Eu li o texto inteiro. Cheguei mesmo a reler algumas passagens. E o copiei. É verdade! Copiei para guardar e ler mais vezes, e quem sabe, enviar a alguém interessado também interessado em redescobrir o Brasil, nem que seja apenas para os nossos filhos e os filhos das gerações futuras.

O texto dessa moça nos dá um verdadeiro banho de realidade sobre comportamento cidadão e político, exatamente aquela realidade que sabemos existir mas nos recusamos a viver. Ele deveria ser lido por toda a Nação brasileira, e se bem interpretado (e esse é outro problema), ajudaria a mudar muitas consciências, tenho certeza!

Gostaria, se você autorizar, de publicá-lo no meu blog, o Dando Pitacos.

Um grande abraço...

Marcos Airosa disse...

Doce Atena, excelente post, e gostei muito do comentário do Carlos, se o ¨povo¨ brasileiro se organizasse da mesma forma como faz pela copa do mundo, para exigir nossos direitos estaríamos bem melhor.Bjo.