"No Egito as bibliotecas eram chamadas Tesouro dos remédios da alma. De fato é nelas que se cura a ignorância, a mais perigosa das enfermidades e a origem de todas as outras.”

(Jacques Bossuet).

Mostrando postagens com marcador "criança interna". Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador "criança interna". Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Existe maldade gratuita?

maldade

Postei há pouco tempo uma matéria sobre uma experiência que foi denominada “Efeito Lúcifer” onde descobrimos que pessoas comuns, numa situação onde podiam exercer poder arbitrário e legal sobre outras, tornaram-se cruéis torturadores.

Hoje vamos adentrar um pouco mais neste campo, o da crueldade, maldade ou perversidade, como queiram chamar. Por que estou postando sobre este tema? Porque tomando conhecimento dos noticiários atualmente percebemos que os atos ditos maus ou cruéis estão se tornando um lugar comum em distintas partes do globo. Seja em regimes totalitários (Síria, por ex.), seja em países democráticos (Brasil, onde se queimam moradores de rua). Em vista disso é útil saber os porquês das pessoas agirem assim para, se possível, prevenir.

Ao indivíduo comum, normal, bem comportado parece que o mundo enlouqueceu. Será? Vejo duas possibilidades de resposta: 1) a crueldade sempre existiu, somente que agora temos amplo e imediato acesso, ou quase, aos fatos que ocorrem na sociedade planetária ou 2) mais pessoas estão “saindo dos trilhos” porque não estão aguentando as mudanças que ora ocorrem no planeta (a consciência está aumentando, e sendo ela luz, acaba trazendo à tona a escuridão que existe em cada um).

Freud atribuía a maldade à pulsões (conceito vago e difícil de entender) eu prefiro, segundo a Análise Transacional, atribuí-la à Criança Interior. Nossa criança interna é amoral, como qualquer criança pequena o é, carente de juízos de valor. Os pequenos não sabem que estão causando algum mal ao gato quando puxam o rabo dele. Os conceitos de bem e de mal vão se instalando em nossa psique conforme vamos crescendo. Na idade adulta, para alguns, ter seu objetivo alcançado transcende seus conceitos e/ou valores internalizados.

Trarei aqui algumas contribuições de um excelente trabalho (Tese de Mestrado de Marie Danielle Brülhart Donoso – Estudo psicanalítico sobre a gramática da maldade gratuita). Seus excertos serão colocados em cor e fonte diversas.

Autores citados na tese mencionada trazem diferentes abordagens à questão da crueldade. Gostei do enfoque de Hannah Arendt que considera que o mal é a absoluta falta do pensar (em profundidade). Em decorrência desse pensamento cunhou a expressão mal banal ou banalidade do mal. Ela chegou à sua conclusão a partir do estudo que realizou sobre os nazistas. Esteve presente, inclusive, nos julgamentos de Nuremberg. Esta “falta do pensar” nada mais é do que falta de reflexão ou, por extensão, falta de consciência evoluída.

Neste exemplo pode-se constatar a ausência de reflexão (depoimento de um soldado sobre os extermínios na ex-Iugoslávia): “A gente mata, e depois que a gente matou [...] temos que continuar matando sem parar, em ação sem parar, tiros sem parar, dedo no gatilho sem parar [...]. O importante é uma certa eficiência, uma coisa puramente, puramente empírica: não há muita filosofia, nem muita reflexão sobre o porque matei. É isso. (Welzer, 2007, p. 276).”

“Arendt não acredita que exista um Eichmann em cada um de nós, mas suas características é que se multiplicariam em sociedades de massa, inclinadas ao não exercício do pensamento e à falta de profundidade.” (grifo meu) “Não pensar é também negar a si a responsabilidade pelos seus atos e é justamente quando não refletimos sobre o mal que podemos realizá-lo, quando anestesiamos a criticidade.” (Adilson Silva Ferraz)

Hannah Arendt dizia que “Os campos (de concentração nazistas) são a única forma de sociedade onde é possível dominar o homem inteiramente”, mas conforme vimos no Experimento de Zimbardo - o Efeito Lúcifer, isso é possível em outras circunstâncias, desde que estejam presentes os elementos propiciadores.

Além do fato de não pensar, outro elemento vem propiciar o surgimento da bestialidade nos seres humanos: fazer parte de uma “massa” humana.

Heinrich Himmler num de seus discursos: “Nós tínhamos o direito moral, nós tínhamos o dever em relação ao nosso povo, de matar esse povo que queria nos matar. Não é um “eu” que mata, é um “nós”. (Welzer, 2007, p. 282).”

Assim fica mais fácil, não é? Um “nós” ao invés de um “eu”.rsrs

Quando o indivíduo faz parte de um grupo, grande ou até mesmo pequeno, ocorre o que Freud se referia como abdicar do ideal de ego pelo ideal de massa ou como disse Marie Danielle: “[...] o anonimato da massa – facilita uma suspensão da repressão e um apagamento da consciência moral e do sentimento de responsabilidade.”

Novamente aí observamos a falta de reflexão e consciência evoluída, pois um indivíduo altamente consciente escolherá o caminho a agir de acordo com seus princípios éticos e não se deixará levar pela turba.

Um terceiro elemento encontrado na manifestação da violência ou crueldade é a segregação, o catalogar-se, e aos demais, por nação, etnia, credo, orientação sexual, etc.

Sobre o massacre de My Lai, Vietnã : “Aterrissamos em outro planeta. Ninguém tem a menor ideia do que falam. Ninguém tem o menor sentimento pelos vietnamitas. Não são seres humanos. Então, pouco importa o que você faça deles. (Welzer, 2007, p. 239).”

Vemos no noticiário: pai e filho espancados por suposição de serem gays; templos espíritas e umbandistas são atacados por religiosos de outra fé, moça agredida brutalmente por terem suposto que era prostituta, roubos seguidos de morte quando as vítimas nem sequer reagiram, assassinato de crianças numa escola por fanático islâmico e por aí vai a insana fúria dos intolerantes que não conseguem aceitar as diferenças, que se consideram donos da verdade ou baluartes de sua fé, que se supõem superiores por sua raça ou status social.

“Os requintes de bestialidade mais atrozes acompanham o homem ao longo de toda sua história e a aculturação, o progresso e a ciência não proporcionaram a hegemonia da civilidade nem garantiram o primado da razão.”

A vida em sociedade impõe restrições aos nossos impulsos primitivos que quando chegam a um limiar crítico irão se descarregar, por exemplo, através da violência. Uma das formas de descarregar os impulsos primitivos seria, o que é tão comum atualmente, hostilizar minorias “diferentes”.

Enfim, não podemos dizer que exista maldade gratuita porque toda ação humana tem algum motivo por trás. . Vejamos o exemplo de um torturador que gosta do que faz, ele pode estar desrecalcando no torturado os maus tratos ou falta de amor que sofria na infância.

A psique humana é muito complexa e sempre devemos levar em conta que, muitas vezes por detrás de uma aparência polida, reside um ogro primitivo que pode emergir a qualquer momento. Esse é o ser humano nem besta, mas também nem anjo. Enquanto vivermos na dualidade assim será.

Reflitam sobre isso.

Imagem: rumoatolerancia.fflch.usp.br

Este blog foi criado para você, leitor. E só saberei se você está satisfeito se comentar os posts, ou então, pergunte, questione e sugira temas ou modificações.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Como age nossa Criança Interna

bolo

Já postei aqui sobre a Criança Interior e sobre os Estados de Ego que todos nós apresentamos segundo a teoria de personalidade chamada Análise Transacional.

Hoje vamos aprofundar um pouco sobre a nossa parte Criança. No post linkado já expliquei o que é a Criança interna, agora vamos ver como ela atua.

A Análise Transacional nos diz que a Criança interna ou interior se subdivide em três partes distintas:

Criança Adaptada (rebelde, submissa ou opositora)

Pequeno Professor (sensitividade e criatividade)

Criança Natural (instintos, alegria de viver, prazer)

A Criança Adaptada é um aspecto da personalidade onde foram registrados nossos sentimentos em relação às condutas de nossos pais (ou substitutos), principalmente em relação a nós, durante a primeira infância (até mais ou menos 8 anos). É nessa fase em que somos “programados” ou como diria Pavlov, condicionados.

A infância é um período da vida humana em que ao mesmo tempo “onde tudo parecem flores”, há brincadeiras e alegria, também há muita frustração porque os pequenos não têm entendimento cognitivo do que se passa. Por mais inteligente que a criança seja seu cérebro não tem ainda suficientes informações para realizar as conexões necessárias ao entendimento de uma situação específica. Isso vai acontecendo aos poucos, conforme os anos passam, até chegar à idade onde o HD interno já tem uma gama enorme de informações que podem ser linkadas entre si (a memória) permitindo então ao indivíduo ter compreensão do assunto, fazer inferências, análises, etc.

Na infância, então, o que existe são reações aos estímulos externos fundamentadas em sensações e sentimentos. Daí ocorrerem muitas frustrações e sentimentos de rejeição e/ou abandono.

É importante ressaltar que toda criança quer e precisa do apoio e segurança que os pais proporcionam e elas também vão percebendo que nem sempre o conseguem, já que muitas vezes são repreendidas ou castigadas por algo que tenham feito.

Então os pequenos vão se adaptando ao status quo que os rodeia. Cada um se adapta à sua maneira, mas segundo a extensa observação dos teóricos da Análise Transacional, existem três tipos bem distintos de adaptação decorrentes da própria índole da criança e do comportamento dos pais com ela. São eles:

Criança Submissa – é aquela que faz tudo o que os pais dizem ou ordenam. São dóceis e passivas, orientadas por medo e culpa. Futuramente, a não ser que algo as faça mudar (psicoterapia, por exemplo) serão aqueles adultos a quem a voz popular chama de “bunda mole”.

Criança Opositora – com esse tipo atua predominantemente o comportamento parental dúbio, ou seja, um dos pais atua com os filhos de uma forma e o outro de forma oposta. Pode também ser uma única figura parental que tem atitudes do tipo: “faz o que eu digo, mas não faz o que eu faço”. Ou ainda: repreende a criança com um sorriso (mensagem dúbia que gera confusão na cabecinha da criança).

Criança Rebelde – Faz “o que lhe dá na telha”, o que quer fazer e não o que lhe mandam. É mais saudável (psicologicamente falando) do que os outros dois tipos, pois seu comportamento é mais adequado à sua faixa etária.

Vejam um exemplo de atuação dos três tipos. A mãe coloca em cima da mesa um bolo que acabou de tirar do forno e diz ao filho: “não mexa no bolo, é para comer mais tarde”.

A Criança Submissa atende prontamente e não o toca. A Criança Opositora vai esperar a mãe sair da cozinha para pegar um pedaço do bolo, já a Criança Rebelde pegará um pedaço se estiver com vontade, não o fará só para contrariar a mãe.

O PEQUENO PROFESSOR seria considerado a parte adulta da Criança Interna, é o somatório de nossa criatividade, astúcia, curiosidade, desejos de explorar, de experimentar, ou seja, de conhecer. Esta também é aquela parte dos pequerruchos que atua captando intuitiva ou empaticamente as emoções e atitudes dos adultos, o que substituí, provavelmente, sua falta de entendimento cognitivo.

A CRIANÇA NATURAL é o primeiro nível que aparece logo após o nascimento. É a nossa parte instintiva ou animal, a constituição genética herdada. É a alegria, o prazer puro e simples, a diversão como também pode ser o choro, a raiva e a agressividade. Essa é a parte responsável pelo mecanismo de enfrentamento ou fuga em situações de perigo.

Que fique bem claro que estas partes do ego agem na infância, mas também vão continuar agindo durante toda a vida do indivíduo, seja de forma sadia, psicologicamente, ou não.

Quando interagimos como os demais podemos usar um dos nossos Estados de Ego, dois ou mesmo os três (Pai, Adulto e Criança) por isso é que são tão complicadas as relações humanas. rsrs

Imagem: http://www.flickr.com/photos/lhattori/767660015/sizes/m/in/photostream/

Este blog foi criado para você, leitor. E só saberei se você está satisfeito se comentar os posts, ou então, pergunte, questione e sugira temas ou modificações.