"No Egito as bibliotecas eram chamadas Tesouro dos remédios da alma. De fato é nelas que se cura a ignorância, a mais perigosa das enfermidades e a origem de todas as outras.”

(Jacques Bossuet).

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Cadê a solidariedade?

despejo

Elas são 800 famílias ou 1200 pessoas. Homens, mulheres, solteiros, casados, crianças, um bebê de poucos dias é o mais novo. Um aglomerado heterogêneo, porém com algo em comum: a miséria.

Vivem em um hotel da Av. Ipiranga, na capital paulistana, que esteve abandonado durante 5 anos. Num dos apartamentos vivem 22 pessoas, 7 adultos e 5 crianças.

O prédio tem 13 andares e não têm ligados nem a energia elétrica ou a água.despejo5

No térreo uma única torneira, que foi ligada clandestinamente pelos moradores, abastece todos que ali vivem e que, com baldes, sobem as escadas com a água de que necessitam.

Um dos moradores, entendido em eletricidade, puxou fios (provavelmente de algum poste próximo) e faz instalações elétricas no prédio, mas somente as áreas comuns e 80 apartamentos têm luz.

despejo2 A singular comunidade está muito bem organizada, além de uma síndica, na portaria, um coordenador registra num livro diariamente todas as entradas e saídas dos moradores do prédio. Existem regras de convivência que estão escritas em um cartaz à vista de todos. A principal é: “o meu direito termina onde começa o do outro”.

Nas portas dos apartamentos estão escritos os nomes de seus habitantes.

Na cozinha do hotel há uma equipe encarregada de cozinhar para todos os moradores. As cozinheiras usam toucas de plástico cobrindo os cabelos. A higiene é preservada. No almoço servem 400 refeições e no jantar 1200.despejo3

Existe uma árdua, porém recompensadora tarefa diária: às 4 horas da madrugada uma equipe vai às ruas para conseguir donativos de alimentos e retornam, em média, duas horas depois.

Outro grupo, este de mães, sai do prédio às 5 horas para, juntas, levarem as crianças que estão matriculadas em creches ou escolas fundamentais e que se localizam bem longe de onde moram.

Os que trabalham também saem cedo, pois para muitos os locais de trabalho são distantes.

Quem são essas pessoas? De onde vieram?

Muitos são emigrantes de outros estados que vão para a capital paulistana por causa de sua fama de ter empregos para todo mundo. Outros são desabrigados que tiveram seus barracos destruídos por alguma enchente.

Estão nesse hotel há pouco mais de um mês, mas hoje é o dia de sua expulsão do prédio porque a empresa construtora proprietária do imóvel conseguiu na justiça a reintegração de posse.

despejo4 Um aparato policial foi montado: interditaram as ruas de acesso e cercam o prédio com mais de 200 homens, inclusive Polícia de Choque.

Um policial fala com os moradores dizendo que eles podem entrar para tomar café e têm até às 7:45 horas para saírem do prédio.

E quando eles saem, levando seus pouquíssimos pertences, há muito choro e crianças assustadas.

Um repórter pergunta à antiga síndica o que representa para ela aquele momento e ela responde com voz resignada, mas firme: “representa que eu sou pequena diante do poder público”.

A essas alturas da reportagem que assistia, eu já estava chorando feito bezerro desmamado e pensando ao mesmo tempo: não sou a favor de ocupação de prédio alheio, mas quantos imóveis do Estado existem por este Brasil que estão desocupados e se deteriorando ao tempo ... por que não usá-los para abrigar esses sem teto que pululam pelo país?

Quando a mídia faz estardalhaço com os desabrigados de enchentes, logo surgem iniciativas governamentais de construção de casas populares para esse povo habitar depois. Com certeza custará muito mais caro do que reformar ou adequar prédios públicos abandonados para abrigar os sem teto.

E numa hora dessas, em que assisti com o coração apertado, o sofrimento e desespero daquela gente, cadê os milionários e bilionários que poderiam oferecer alguma ajuda?

Cadê a solidariedade? Cadê a humanidade?

Cadê o fim da ganância que faz com que uma única pessoa ganhe em um dia o suficiente para dar casa para todos aqueles que foram despejados e ainda sobrar muito dinheiro?

Cadê a consciência de que somos todos Um?

Vocês sabem?

Imagens: http://g1.globo.com/videos/profissao-reporter/v/ocupacao-parte-1/1384594/

Este blog foi criado para você, leitor. E só saberei se você está satisfeito se comentar os posts, ou então, pergunte, questione e sugira temas ou modificações.

17 comentários:

Lucy Sem Fronteiras disse...

Aii minha querida Atena, não vi a reportagem mas fiquei eu aqui feito um 'bezerro desmamado', ao ler teu post.

É nesta hora que 'lembramos' que apesar de sermos Consciência, estes problemas ainda são bem reais a maioria da humanidade infelizmente.

Chega a ser revoltante tanto a indiferença, o descaso e o desserviço do poder público, quanto a discrepante diferença e desigualdade que assola o mundo.
Tal como bem disse, há aqueles que ganham no dia, ou em alguns minutos em uma propaganda por exemplo, o suficiente para alojar e dar moradia a todas estas famílias.
Sabemos que este sistema e o mundo como o conhecemos hj, estão com os dias contados, pois em uma Nova Era de Luz (Era Dourada), não cabem mais estes padrões de consciência (ou seria, inconsciência?!).
Porém, a verdade, e´que não adianta falarmos de 'espírito' a quem tem a barriga vazia, a quem não tem onde morar, onde criar seus filhos etc.
Eles carecem de uma solução no agora, já!

É nessas horas e situações como essa, que me sinto tão impotente, por querer fazer muito mais, do que o pouco que consigo por aqui sabe.
Cadê os 'Eiks Batista da vida' numa hora destas?!
Há muita gente que poderia fazer algo, além do poder público com certeza.
Mas infelizmente isso ainda, fica apenas em manchete de jornal, TV e só. Acaba ali e a maioria logo esquece.

Mas quem vivencia isso, sofre na alma, e tem cravado na pele, feito tatuagem, a falta de oportunidade, de dignidade, a humilhação, o desamor e o descaso, com que são tratados.
E são nada mais nada menos, do que nossos irmãos tb...

Belo texto minha querida, e pena, que ele é real!

Beijos no cuore

Lucy Sem Fronteiras disse...

Ps: te linkei lá no blog.
Quero que meus leitores tb tenham a oportunidade de conhecer o seu trabalho ;))

Jackie Freitas disse...

Olá querida Atena!
Amiga, acho que estamos antenadas e em sintonia hoje... Também passei dias questionando isso... Aliás, todos os finais de ano, quando vejo o monte de hipócritas pronunciando palavras de amor, carinho, fé e solidariedade...tentando passar uma imagem humana, mas sem doar um pouco de sua humanidade a quem de fato precisa... Ao contrário: clamam para que nós (e apenas nós) ajudemos e sejamos despertados por esse "espírito"... Nesse ponto somos "um por todos e todos por um"... As classes se juntam, embora não se misturem e nós, humanos de verdade, repartimos o pão e fazemos de nossa ceia a ceia daqueles que só querem o pão...
Ando indignada com tudo o que vejo e ouço e me perdoe pelo desabafo...
Enquanto não acabar com essa hipocrisia generalizada, Natal será apenas mais um dia comercial ou um marco de calendário...
Grande beijo, querida!
Jackie

Atena disse...

Luci dear:
Sei perfeitamente que essa realidade vai mudar com a nova consciência que está chegando, mas também sei que vai demorar e meu coração de manteiga não aguenta certas situações que hoje, realmente hoje, poderiam mudar se houvesse menos ganância.
Como você disse esse pobre povo não pode, na sua situação, ouvir sobre o Espírito, pois eles precisam no agora ouvir sobre oportunidades e dignidade.
Agradeço a linkagem, você é dez!
beijos mil

Atena disse...

Jackie:
Seu comentário, assim como o da Lucy, me fazem pensar que pessoas como nós, que estamos antenadas nessas situações, podemos fazer tão pouco... e acabamos sofrendo por isso. Não é?
Mas, com relação ao Natal, são muitos pelo planeta afora que vivem o seu real significado: a esperança, a compaixão e o amor que Jesusinho trouxe para nós todos.
Esta data, para mim, é sempre de muita emoção e alegria e tento não enxergar o lado comercial que dela fizeram.
Amei sua participação, realmente estamos em sintonia.
beijos mil

Anônimo disse...

Muito om o texto, acho uma tremenda falta de humanidade simplesmente jogar na rua pessoas de em que se organizam para se ajudar sem prejudicar ninguém.
Ah, estreei a seção Selo do Filosofia no meu log, presenteando você...
Se quiser dar uma olhadinha o endereço é esse:
http://filosofiadebanheiroecias.blogspot.com/2010/12/selo-filosofia-de-banheiro-cia-ii.html

Smacks no coração e muito sucesso pro seu blog.

Principe Encantado disse...

Todos ou a maioria fala esta palavra, mais na integra, na essência, na pratica, passam longe ou distorcem para tirar proveito próprio. Infelizmente.
Abraços forte

Atena disse...

Marine:
Obrigada pela participação e mais ainda pelo presente. Adorei seu selinho.
beijão

Eduardo Medeiros disse...

é, o problema é muito tocante. pelo menos não houve violência já que eles saíram e acataram a ordem. mas também fico me perguntando para onde vão esse povo? sabemos que existe muita manipulação política com os sem-terra, os sem-teto, os sem-qualquer-coisa, mas isso não desmente o real problema social que ainda existe no brasil.

Atena disse...

Príncipe e Edu:
Ambos tem razão em suas palavras. è uma situação triste a de muitos brasileiros e a hipocrisia sempre está presente.
abraços

CLAUDIA disse...

Atena querida!
São tantas perguntas e poucas respostas não é mesmo amiga?
É tanto desperdício enquanto outros nada tem!
Sei que é muita desigualdade,muita falta de soliedariedade,quer dizer falta tudo!
Isso entristece a gente sabe.
Cadê os grandes políticos?
Sumiu,o gatinho comeu!
Cadê o governo?
Ele tem coisas mais importantes para resolver!
Nessa hora só podemos contar mesmo uns com outros na famosa corrente do bem.
E isso o povo Brasileiro é ganhador de medalhas!!
Parabéns pelo post!
Bjos em seu coração!

isma disse...

triste realidade esta,realmente este post nos levou a uma reflexão. Onde esta a solidariedade? acredito que não exite mais os homens estão ficando egoistas so pensam em si próprio. Rogo a Deus que haja solução para este caso,a paz

Cidadão Araçatuba disse...

Vivemos situações parecidas (guardadas as devidas proporções!) na minha cidade, que encontra-se miseravelmente abandonada, discutiram na câmara de vereadores a semana passada (projeto do executivo!)a urgência em criação de um museu que homenageia os ferroviários!
Nada contra, mas se você tiver curiosidade de ler o post no blog e ver as fotos,e vídeos você entenderá meu inconformismo!
São vidas humanas que sofrem ou pela ineficiência do poder público ou pelos seus desmandos!

-Sabe:
-"Vou me embora para pasárgada..."
PS: Muito legal seu blog sempre darei uma passda por aqui!

Atena disse...

Claudia:
Obrigada pela participação e solidariedade demonstradas.
Realmente é o povo que poderá dar um basta a tudo isso, mas ainda não se conscientizou para tanto.
beijos

Atena disse...

Ismaelita:
Obrigada pela participação e volte sempre.
Os comentários dos leitores são muito necessários.
abraços

Atena disse...

Cidadão Araçatuba:
Obrigada pela participação.
Seria muito bom se Pasárgada nos acolhesse, os solidários e humanitários, mas por outro lado são esses os que poderão fazer alguma coisa por aqui. eu faço procurando expandir consciências, outros fazem de diferentes maneiras. Como disse a leitora Claudia: a corrente do bem.
Irei, sim, ver seu post.
abraços

Anônimo disse...

Olá Atena.
Post publicado .
Até mais.